“HÁ ALUNOS A VIVER EM GARAGENS”

Vivem em situação precária, precisam de trabalhar para conseguir sobreviver e estudar no Ensino Superior. Exercem actividades profissionais sem direito a contrato e com rendimentos não declarados. São estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) a estudar na Universidade de Coimbra. Ao todo são 500, a maioria vem de Cabo Verde. Hector Costa é um desses alunos. O são-tomense estudou as condições em que vivem muitos dos seus colegas, uma investigação que resulta de uma tese de mestrado. Relata situações dramáticas.

“Há alunos a viver em garagens, outros que fazem quilómetros a pé para ir para a faculdade e outros que têm que optar: ou tomam o pequeno-almoço ou jantam”, alerta Hector Costa. A estes casos juntam-se muitos outros de alunos que têm propinas em atraso. O estudante são-tomense fala de situações “dramáticas”.

Dos 500 alunos dos PALOP a estudar em Coimbra, os de São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique são os atravessam maiores dificuldades. Os angolanos ainda são os mais “privilegiados”, os que vivem mais “folgados”, diz Hector Costa.  Por que é que são diferentes dos outros? Porque vivem à ”sombra da centralidade internacional” que Angola assumiu, justifica.

O estudante são-tomense que é, ao mesmo tempo, investigador e objecto de estudo, conhece de perto os problemas dos alunos dos PALOP a estudar em Portugal. Quis saber por que é que estes alunos precisam de dividir o tempo entre o trabalho e a escola para sobreviver.

“Muitos exercem actividades em cafetarias, restaurantes ou na apanha da fruta. Ganham cerca de 100 euros por mês”, relata. O problema é que muitos destes alunos não têm contrato de trabalho, porque o visto de estudante que têm para permanecer no país não permite uma actividade profissional remunerada, alerta Hector Costa.

Foi a questão do trabalho informal (serviços remunerados mas com rendimentos não declarados e sem vínculo contratual) que deu origem à tese de mestrado em Sociologia na Faculdade de Economia na Universidade de Coimbra, realizada entre Janeiro e Outubro deste ano.

Bolsas de estudo só chegam a 18% dos alunos

O problema é que as bolsas são insuficientes e, além disso, chegam demasiado tarde, lamenta Hector Costa. “Chega a haver atrasos de 6 e 7 meses”, diz, acrescentado: “Não existe uma política de apoio sustentada que vise atenuar as carências financeiras destes estudantes.

Dos 500 alunos PALOP a estudar em Coimbra apenas 18% recebe bolsa de estudo. As bolsas variam entre os 270 e os 400 euros por mês. Uma verba que não chega para fazer face às despesas, sustenta Hector Costa: em média um aluno da Universidade de Coimbra gaste 600 euros mensais.

A solução passa por um aumento das bolsas proporcional ao aumento do custo de vida e pela alteração das regras de atribuição das verbas. “ É ridículo que um estudante, um jovem de 17/18 anos, que venha para um país diferente, que enfrenta uma adaptação social agressiva, perca a bolsa por chumbar no primeiro ano. As instituições deviam adoptar políticas mais pedagógicas, por forma a que estes estudantes não se asfixiem nas dificuldades ”.

Dificuldades económicas obrigam alunos a abandonar o ensino

A instabilidade das condições económicas dos alunos PALOP a estudar no nosso país está, muitas vezes, na origem de maus resultados escolares. A excessiva carga horária nas actividades profissionais que exercem e a inflexibilidade das entidades patronais, deixa pouco tempo livre para dedicarem aos estudos, sustenta Hector Costa.

Alguns acabam mesmo por abandonar o ensino. “Quando estudava, vi colegas meus de faculdade a desistir”, conta o jovem. A estes casos juntam-se outros tantos. “Alunos cabo-verdianos que vieram para Coimbra com boas expectativas, mas não tiveram condições para ficar e voltaram para Lisboa para junto de familiares”.

Na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), com uma comunidade de estudantes estrangeiros representativa – só os dos PALOP e de Timor Leste contabilizam 300 -, a taxa de insucesso escolar é “elevada”, aponta Hector Costa.

Na Universidade de Coimbra estudam 500 alunos dos PALOP. A maioria vem de Cabo Verde (276), segue-se Angola (81), São Tomé e Príncipe (55), Moçambique (45) e Guiné-Bissau (43). Dos 22 mil alunos da Universidade de Coimbra, os estudantes dos PALOP representam 3,1%.

“Têm a cidadania confiscada dadas as suas dificuldades”

A falta de apoio dos países de origem faz com que muitos destes estudantes percam as raízes e não queiram voltar à sua terra Natal. “Os governos têm que acompanhar sistematicamente os seus alunos, não basta enviá-los para cá. Se não houver esse acompanhamento, os alunos perdem a identidade, o afecto pelo país de origem, o que origina uma fuga de cérebros ainda maior”, ressalva Hector Costa.

Apesar de muitos não encontrarem em Portugal as condições que esperavam ou desejariam, isso não se reflecte na diminuição da procura do nosso país. Ao longo dos anos tem havido um fluxo migratório “intenso”, sublinha Hector Costa.

Em Portugal são mais de 3 mil estudantes dos PALOP no Ensino Superior, avança o são-tomense, que acrescenta: “Só no ano lectivo de 2008/2009 houve mais 13 mil alunos a procurar o país”.

Hector Costa, sociólogo, músico e actor, está desde 2003 em Portugal.  O são-tomense diz que até teve uma integração “fácil”, pelas redes sociais que foi criando ao longo da vida e pelo apoio dos docentes da Universidade de Coimbra e da namorada. Terminou o mestrado em Sociologia e, no futuro, pretende tirar um doutoramento na área das políticas sociais. O jovem de 28 anos ainda não sabe por quanto tempo ficará em Portugal e se regressará ao seu país de origem, mas: “Quando se vem para outro país, a intenção é sempre voltar”, conclui.

Etiquetas:

Uma resposta to ““HÁ ALUNOS A VIVER EM GARAGENS””

  1. Wilson Monteverde Says:

    Tenho que ti parabenizar por teres dedicado ao estudo de um tema tão pertinente e delicado, que tem afrontado os estudantes de PALOP em geral e muito particularmente os de STP. Também passei por essa experiencia de estudar no extrangeiro por conta propria.
    So tenho que deixar uma palavra de encorajamento a todos os estudantes q se encontra por situação semelhante.
    Por tudo isso, nunca se esqueçam da nossa terra natal “STP”
    Saudações.
    Wilson T.MV

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: