Estudantes e professores pouco satisfeitos com Bolonha

Brabara Wong, jornal O Público

Ao longo destes dois dias, os ministros e o grupo de acompanhamento da implementação de Bolonha (a sigla inglesa é BFUG) estão reunidos para discutir os principais desafios para os próximos dez anos. Ao mesmo tempo, nas ruas de Viena, são esperados cerca de cinco mil manifestantes, estudantes austríacos, alemães, gregos e de outros países que contestam o modo como o processo foi implementado. Em causa está a “má interpretação” que os Governos fizeram de Bolonha, explica Sigrid Maurer, presidente da associação nacional de estudantes austríaca. Houve Governos que aproveitaram para aumentar propinas e limitar o acesso ao superior, acusa.

O Cazaquistão é o próximo membro a entrar num clube que, hoje e amanhã, reúne em Viena e Budapeste os ministros responsáveis pelo Ensino Superior, para celebrar os dez anos do início do processo de Bolonha e lançar formalmente o Espaço Europeu de Ensino Superior. São 46 os países que aderiram a Bolonha, que tem como objectivo a harmonização da oferta de ensino superior na Europa. Mas nem todos convergem numa avaliação positiva da reforma.
Do balanço que é feito por estudantes e professores, o pior é a falta de mobilidade. Esta foi uma das promessas de Bolonha, mas está ainda muito aquém de ser cumprida, continua Maurer. “Bolonha só será uma realidade quando a mobilidade for para todos”, defende. As instituições olham para a mobilidade como um “negócio” e não como um modo de promover a qualidade das formações que oferecem, critica o relatório feito o mês passado pela Associação de Estudantes Europeia, que propõe uma maior participação dos estudantes nos órgãos decisores das instituições.

Para os professores, é necessário clarificar as suas condições de trabalho, remunerações e Segurança Social quando mudam de instituição, revela o estudo da Education International, que será também debatido pelos ministros. Os professores queixam-se de que Bolonha lhes trouxe mais trabalho e mais burocracia, e mais de 50 por cento dos inquiridos denunciam que as suas condições de ensino e de investigação se deterioraram.

Governos mais envolvidos

A verdade é que a Europa que aplicou Bolonha caminha a diferentes velocidades na sua implementação e fez interpretações distintas dos seus princípios. Falta reconhecimento e apoio aos estudantes e aos professores, revela o relatório independente feito pela Center for Higher Education Policy Studies (CHEPS) a pedido da Comissão Europeia e do BFUG, a que o PÚBLICO teve acesso. Nos próximos dez anos, o desafio será o da mobilidade para professores e alunos – e o CHEPS diz que os Governos podem e devem envolver-se na criação de condições para que mais pessoas tenham acesso ao ensino superior.

Outro desafio que se coloca aos Governos é o de manter o interesse político nesta mudança, de maneira a minimizar o risco de tornar Bolonha num processo meramente administrativo, sem real impacto no ensino superior, continua o relatório, reconhecendo, no entanto, que o discurso mudou, pois deixou de estar centrado no interesse nacional para passar a ter um olhar internacional: aumentou a cooperação com a América Latina e África, por exemplo. Aliás, na reunião interministerial estarão convidados de outros países fora da Europa interessados no movimento que Bolonha trouxe ao ensino superior.

Apesar deste retrato, num inquérito feito pela Associação das Universidades Europeias, 58 por cento das universidades consideram que a reforma foi “muito positiva” e apenas 0,1 por cento lhe deu nota negativa.

Uma resposta to “Estudantes e professores pouco satisfeitos com Bolonha”

  1. Ricardo Says:

    eu concordo com o apelo feito pelo AEE já que existe um certo alheamento das causas de todos nós, estudantes do ensino superior. Parece que é só eleger uma Associação de Estudantes e descartamos as nossas responsabilidades, não fazemos depois chegar as nossas ideias nem participamos nas demonstrações de interesse e de força em situações que são injustas nem que as mesmas nos afectem directamente (já nem digo indirectamente como é o caso ilustrado na vossa peça).

    Vou revelar o que acontece na minha escola a título de exemplo:
    – RGA – Reunião Geral de Alunos – com participação de 1/16 dos estudantes existentes no meu politécnico.

    – debate entre duas listas para a Associação de Estudantes, que apenas mobilizou para assistir ao debate elementos das próprias listas.

    que se passa conosco?! assim não podemos mostrar força, aliás assim não temos força.

    Os órgãos nossos representantes existem e representam-nos, mas depois de eles não conseguirem temos de ser nós a intervir pra demonstrar o poder de quem existe em maior quantidade nas instituições superiores, os ALUNOS.

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