“Tenho sincero respeito por aqueles artistas que dedicam suas vidas exclusivamente à sua arte – é seu direito e condição! – mas prefiro aqueles que dedicam sua arte à vida”

O teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente. Por isso é necessário lutar por ele. Por isso, as classes dominantes permanentemente tentam apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito do que seja o “teatro”. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de libertação. Para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar.

No início, “Teatro” era o povo cantando livremente ao ar livre: o povo era o criador e o destinatário do espectáculo teatral, que se podia então chamar “canto ditirâmbico”. Era uma festa em que podiam todos livremente participar. Veio a aristocracia e estabeleceu divisões: algumas pessoas iriam ao palco e só elas poderiam representar enquanto todas as outras permaneceriam sentadas, receptivas, passivas: estes seriam espectadores, a massa, o povo. E para que o espectáculo pudesse reflectir eficientemente a ideologia dominante, a aristocracia estabeleceu uma nova divisão: alguns actores seriam os protagonistas (aristocratas) e os demais seriam o coro, de uma forma ou de outra simbolizando a massa. “O sistema trágico coercitivo de Aristóteles” nos ensina o funcionamento deste tipo de teatro.

Veio depois a burguesia e transformou estes protagonistas: deixaram de ser objectos de valores morais, superestruturais,e passaram a ser sujeitos multidimensionais, indivíduos excepcionais, igualmente afastados do povo, como novos aristocratas – esta é a “Poética da Virtù” de Maquiavel.

Bertold Brecht responde a estas Poéticas e converte o personagem teorizado por Hegel, de sujeito-absoluto, outra vez em objecto, mas agora se trata de objecto de forças sociais, não mais dos valores das superestruturas. O “ser social determina o pensamento” e não vice-versa.

Para completar o ciclo faltava o que está actualmente ocorrendo (…). A destruição das barreiras criadas pelas classes dominantes. Primeiro se destrói a barreira entre actores e espectadores: todos devem representar, todos devem protagonizar as necessárias transformações da sociedade. Depois, destrói-se a barreira entre os protagonistas e o Coro: todos devem ser, ao mesmo tempo, coro e protagonistas(…). Assim tem que ser a “Poética do Oprimido”: a conquista dos meios de produção teatral.

Augusto Boal, 1974

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