O caminho dos estudantes ingleses e a luta

Uma das frases que são repetidas nas ocupações [dos estudantes da Grã-Bretanha] é : “Vocês trouxeram o vosso mercado para a nosso ensino, nós vamos agora trazer o nosso ensino para o vosso mercado”.

José Biern Boyd Perfeito, estudante na Grã-Bretanha, para o Esquerda.net

Durante a campanha eleitoral em 2009, Nick Clegg, do Partido Liberal, afirmou vezes sem conta que iria apoiar o sistema educativo, sem que houvesse qualquer mexida nos valores dos cursos que foram introduzidos pelo governo Blair, alguns anos antes, considerados duma forma geral aceitáveis.
Tal como Clegg, Cameron não falou em aumentos de impostos ou cortes orçamentais, durante a campanha eleitoral.
A crua realidade é que hoje, os ingleses estão a sofrer cortes orçamentais extremos, congelamentos salariais na função pública e um corte enorme no sistema de ensino como não há memória, nem no odioso tempo do governo Thatcher. Tempos destes vão de volta aos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, com a reconstrução do país.

Todas as explicações dadas pelo Primeiro-Ministro Cameron, são aquelas que os Portugueses já estão fartos de ouvir, como também o resto dos Europeus. A cassete é a mesma o que deixa a certeza que não é real.

O grande ataque ao estado social e às famílias da classe trabalhadora, como sempre as mais afectadas pelas políticas destes governos e desta Europa, escolhendo cortar onde não há nem pode haver despesismo, tem sido o caminho seguido pelo Governo Conservador-Democrata/Liberal.

No entanto, um dos maiores alvos é sem sombra de dúvidas, a Educação. O valor total do corte no orçamento deste ano e para os próximos quatro anos é de 25%, um quarto do orçamento geral. São menos mil milhões e quatrocentas mil libras, verticais a todo o sistema, seja no básico, no “secundário e complementar” seja no universitário. Vai haver despedimentos, isso é claro e assumido pelo Primeiro Ministro Cameron.

O aumento das Tuition Fees (propinas anuais) importa em média cerca de 200% em relação aos anos transactos ou seja o dobro e nalguns cursos o triplo no valor a pagar pelos estudantes.

Normalmente estava-se nas 3.450 libras, para o ano vão haver cursos a custarem perto de 10.000 e os MA’s podem chegar às 16.000 libras.

O aumento da duração dos créditos, ou seja, mais tempo a pagar a educação e a completa negação de uma educação universal e gratuita, parecem não incomodar a direita conservadora talvez pelo facto de sempre terem Eton e as Grammars Schools onde pode pôr os seus filhos a estudar sem apoio do estado, porque têm dinheiro. A educação volta a ser um privilégio de quem tem dinheiro.

Estas medidas prejudicam gravemente as famílias mais pobres, com menos possibilidade de arranjar fundos para concorrer ao ensino universitário e pagar os cursos, o que provoca uma desigualdade de oportunidades na sociedade inglesa, sendo já este facto (não permitido como resultado de qualquer orçamento de estado), motivo de estudo para uma impugnação do orçamento pela sociedade civil, situação possível na legislação inglesa.

Os bancos são também, os mais beneficiados porque sendo eles que fazem o empréstimo, com a garantia e o pagamento dos juros por conta do Governo inglês, logo se apressaram a subir as taxas de juros com a justificação que o dinheiro estava mais caro. A mesma conversa, não importa o país.

Em Outubro, duas grandes reuniões foram efectuadas em Londres, entre o organismo nacional das associações de estudantes e os organismos locais nas quais foi decidido lutar ferozmente contra esta ameaça ao ensino e aos estudantes. A grande marcha de protesto, efectuada em Londres, em meados de Outubro, com a invasão da sede do partido conservador, tornou claro para o governo que tinha um problema entre mãos. 20 mil estudantes estiveram nesse protesto em Londres, vindos de todas as partes do país, regressando depois com as centelhas de força que tinham recebido.

Em todas as universidades se geraram movimentos similares e ao lado das organizações, formou-se um grupo em Oxford, chamado de “ ocupado” que todos os dias ocupa um símbolo do poder, para chamar a atenção e que já se estendeu a outras localidades. A Radcliff Library da Universidade de Oxford, o Council (governo local) e os bancos têm sido alvos de ocupações momentâneas não violentas, mas que chamam a atenção das pessoas para o problema. Todos os dias há actividades, todo os dias mais gente aparece para se juntar aos protestos.

Manchester, Liverpool, Bristol, Cardiff, Edimburgo, Glasgow, Newport, York, Newcastle, Lewisham, Preston, entre muitas outras, são as cidades universitárias onde protestos têm eclodido com regularidade. Em Preston, trabalhadores de uma fábrica de energia, fizeram uma concentração em apoio dos protestos dos estudantes. Em resposta a um jornalista da BBC sobre a razão do apoio aos estudantes, um dos trabalhadores respondeu, “somos os pais deles”.

A polícia tem carregado ferozmente contra os estudantes, com as habituais técnicas de violência, mas não tem conseguido evitar as mais diversas formas de protesto que por vezes são criativas e pouco usuais.

Apesar de todo o controlo, medidas de diversão, infiltrados, ameaças e outras formas de pressão, os estudantes têm aguentado este tempo todo com protestos organizados quase todos os dias, deixando o centro das cidades num caos, surpreendendo a polícia pelos numerosos participantes.

Essa é a maior força que se pode ter.

Os estudantes sabem, tal como o povo inglês que uma das razões para os cortes, foi o dinheiro que o governo teve de pagar para cobrir o sistema bancário em 2008/2009, com aliás aconteceu em Portugal e nos restantes países europeus, daí que os bancos e os banqueiros, as grandes multinacionais ligadas à evasão fiscal, sejam os mais atingidos pelos protestos, tal como o líder e Ministro do governo, Nick Clegg, que está também pressionado pelos seus eleitores, no círculo eleitoral que o elegeu, além de alguns membros dos seu próprio partido. Apelidado de Nick, o mentiroso, escreveu esta semana uma carta aberta aos estudantes e reuniu com o líder da National Students Union, Aaron Porter, pedindo para que ele e o seu partido não fossem alvo dos protestos dos estudantes, criando assim uma já mais que visível fractura na coligação que governa o país. Não se livrará assim tão facilmente.

Esta fractura poderá ser uma das variáveis destes protestos, porque muito dos MP’s (membros do Parlamento) liberais democratas estão publicamente contra os cortes do orçamento deixando Nick Clegg isolado na sua cadeira de poder, conjuntamente com Cameron e o establishment aristocrático e com os bolsos bem cheios.

No espectro político tem havido o apoio claro e inequívoco aos protestos dos estudantes e da sociedade civil pelo SWP (Socialist Workers Party) e demais partidos à esquerda, sendo muito criticada a ausência do Labour Party nomeadamente do seu novo líder, Ed Milliband, um seguidor do Blairismo e do New labour sendo uma das excepções o esquerdista candidato a líder derrotado do Labour Party, Mcdonnell que ao ser confrontado com a palavra criminosos por um MP conservador (membro do parlamento) em relação aos estudantes, respondeu que “os verdadeiros criminosos são aqueles que cortam verbas ao sistema educativo e à vida das pessoas em geral.”

Na sua declaração de vitória no congresso do Labour Party Ed Milliband foi claro quando afirmou que mesmo na oposição, não iria apoiar greves irresponsáveis.

Ed Milliband foi bastante claro sobre a sua liderança.

A maioria do povo inglês apoia os protestos, porque sente que o alvo é o Estado Social, não só o sector educativo, mas também o da saúde, as próprias autoridades locais e os serviços públicos.

Os sindicatos dos professores, associações de pais, movimentos comunitários e demais forças da população, estão também na primeira linha dos protestos, promovendo encontros e reuniões com vista a explicar a situação.

A palavra de ordem, neste momento é lutar, não baixar os braços e ficar a ver as coisas a acontecer.

Não nos podemos dar a esse luxo.

Há que expor a Oligarquia criminal que nos explora, que nos rouba todos os dias, que nos empurra para uma vida miserável só porque tem poder e dinheiro para nos explorar mais. Não temos de aceitar políticas que são impostas por quem não é justo connosco, por quem não nos respeita.

Uma das frases que são repetidas nas ocupações, é : “Vocês trouxeram o vosso mercado para a nosso ensino, nós vamos agora trazer o nosso ensino para o vosso mercado”.

Desafiaria o povo Português, os trabalhadores, os demais cidadãos a darem esta clara mensagem aos senhores do dinheiro.

“Vocês trouxeram as dificuldades para a nossa vida, agora nós vamos levar as dificuldades para a vossa.”

Se isso significa ir para as ruas, protestar , não é por uma razão vã e sem significado e demorando o tempo que demorar. Estamos já há um mês e meio nesta luta e não se vêem sinais de cansaço.

Há muito que entendemos que é a nossa vida que defendemos e essa não é uma razão vã.

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