Encontro Internacional de activistas estudantis

 

Paris | 11 a 13 de Fevereiro 2011

Ricardo Ferreira

 

No primeiro dia, foi feita a recepção de todos os activistas, no anfiteatro da École des Hautes en Sciences Sociales. Nesse espaço, foram apresentados por cada associação, os problemas que os jovens atravessam nas suas regiões/países e as formas de luta e de resistência, face a esses mesmos problemas.

Infelizmente, não pudemos contar com a presença da delegação tunisina. Dado o facto de não lhes terem sido atribuídos vistos que permitiriam a sua deslocação a Paris, foi organizado um protesto imediato, em frente à embaixada tunisina.

No decorrer do encontro, apesar das diferenças encontradas entre as associações, na exposição desses mesmos problemas, entendeu-se a necessidade de encontrar pontos de convergência de forma a internacionalizar as lutas e a responder a duas questões que nos pareceram fundamentais: como poderemos juntar todos os estudantes na Europa e criar uma luta global? Quais os problemas que partilhamos e quais são os específicos de cada país ou região?

Claro que, como seria de esperar de um primeiro encontro, a exploração das duas perguntas iniciais desdobraram-se em muitas outras preocupações, tais como:

•Como juntar, numa grande rede de debate, todas as associações?

•Como organizar uma manifestação global?

•Criar um fundo europeu para Educação?

•Como fazer chegar a informação correcta, e não deturpada pelos média, ao público?

•Como conseguimos manter as forças?

•Como criar uma “Universidade Autónoma Global”?

• Quais as novas formas de luta?

Ao contrário do que se poderia esperar, e pelo facto de sermos mais de cem pessoas a discutir em simultâneo, houve um especial cuidado por parte de cada um dos participantes na gestão das suas intervenções sem os exageros populistas a que muitas vezes assistimos (absolutamente desnecessários quando se quer montar uma unidade) possibilitando uma partilha de experiências que poderão constituir, futuramente, uma base credível para fazer a mudança.

Foram apontadas algumas das formas de luta utilizadas noutros países como por exemplo, a ocupação de universidades (durante vários dias – dá-se o caso da Itália com mais de 50 escolas ocupadas), a ocupação das embaixadas, o bloqueamento de estradas e caminhos-de-ferro, aulas na rua, resistência ao pagamento de propinas em que estas não foram pagas (embora neste último caso, esta acção tenha sido boicotada por todos os outros que não aderiram ao protesto). Foram arremessados ovos a políticos (muito utilizado na Turquia, onde os políticos já saem de chapéus de chuva!) e a ocupação de instituições financeiras. Na Tunísia, as associações protegem as pessoas de grupos opressores, ligados ao regime. Estas associações são grupos de intelectuais independentes (jovens), que organizam comités onde se discute o futuro da Tunísia, e pensa-se nas estratégias e nos modos de intervenção imediatos. Mantêm a neutralidade em relação aos partidos políticos, para proteger a revolução que ainda está no início.

Para além das diferentes propostas de intervenção, apontadas por cada um dos países, foram vários os relatos em relação da situação de cada um deles:

Na Turquia, os polícias reprimem utilizando a violência física e prendem só por “desordem”, escolas são poucas e recentes, e por vezes, os alunos entram e pagam propinas, mas depois não têm professores. As universidades têm menos dinheiro que as escolas do ensino secundário. Os curdos não podem aprender na sua língua, por esta não lhes ser reconhecida.

Na Alemanha, começa a aparecer o sistema de castas nas Universidades. Há uma seriação que distingue os alunos de “elite” dos restantes.

Na Áustria, são cada vez mais visíveis as situações de racismo. Não são aceites estrangeiros como trabalhadores. No ensino, só aos austríacos é atribuída bolsa. Têm acontecido manifestações, mas, como consequência, os manifestantes são obrigados a pagar multas e sofrem violência policial. As pessoas são vigiadas e, em alguns casos, presas. O governo tenta encobrir os acontecimentos.

Na Inglaterra, os professores têm medo de participar nas manifestações, por colocarem em risco o seu emprego. Têm três anos de estágio que não lhes garante, per si, uma colocação segura como docentes. Sobretudo, durante este tempo de “incubação”, não lhes é aconselhado manifestarem-se, pois o seu “contrato” pode não ser renovado.

Um dos grandes problemas evidenciados por quase todos os países, e que atravessa também a realidade portuguesa, é a da não preocupação por parte da população e um certo fatalismo em aceitar de forma dogmática tudo aquilo que lhe é imposto. Nem mesmo a braços com os problemas consegue equacionar soluções, acomodando-se, e resignando-se ao sistema.

Como combater isto?

Neste momento, vivemos numa sociedade em que o poder da imagem, as demonstrações artísticas e as redes sociais assumem um papel determinante no desenrolar dos acontecimentos. Utilizar cada uma destas ferramentas, de forma inteligente e abrangente, podem ser uma possível solução.

Nos últimos tempos, temos assistido à queda de governos no norte de África e a rapidez com que essa informação é passada, deve-se sobretudo à constante atenção dada nas redes sociais. Aliás, durante as discussões, no anfiteatro, apercebemo-nos da saída de Mubarak, do Egipto, em directo.

Assim como se criam redes sociais digitais, precisamos urgentemente de implicar as pessoas na construção de redes sociais reais em que estas se comprometam numa luta conjunta. É necessário auscultar a população e perceber quais são as causas que as movem, que as fazem sair à rua. Na acção temos de procurar o que nos é comum, aquilo que nos une e também, conhecer o lado contra o qual se luta.

Sabemos que do ponto de vista do Governo, não existe a mínima vontade na construção de uma massa crítica competente, caso contrário, teriam imensas dificuldades de controlo da população. É reservado às pessoas, apenas o direito de produzir e, consequentemente, consumir mais. Passamos de cidadãos a meros produtores/consumidores. A formação “Fordista” em que cada um é só mais uma peça na engrenagem, permite-lhe, apenas, conhecer aquilo que produz. O pensamento “out of the box” é reprimido.

Assumindo que a educação deve ser considerada um dos motores principais para a construção da mudança, é urgente rejeitar o paradigma vigente, que transforma alunos em autómatos, reproduzindo o padrão social.

Assim, reconhecendo às universidades, o lugar privilegiado para a formação de profissionais e acesso ao conhecimento, torna-se imprescindível repensar o modelo na qual ela está estruturada. A universidade desejável para o futuro deveria ser acessível a todos; independente das correntes políticas, e das lógicas de privatização que adulteram os princípios para as quais esta deveria servir.

É inadmissível colocar empresas privadas na gestão e nos serviços da universidade e obrigar os alunos a vincularem-se com uma instituição bancária. As universidades deveriam ser locais de liberdade e abertura e com debates internos que resultassem na melhoria das condições de quem usufrui desse espaço.

No sábado, houve workshops dinamizados por diferentes associações e abordando diversos assuntos. A nossa participação fez-se sentir na apresentação do Teatro Fórum / Teatro do oprimido, a cargo do Projecto Estudantes por Empréstimo, onde foi explicado em que consistia esta forma alternativa de intervenção social. Dada a explicação, simulámos situações de opressão através da utilização de imagens, e procurámos soluções, solicitando aos activistas que participaram, que alterassem as imagens para que a situação melhorasse.

O workshop teve bastante adesão e muita gente mostrou-se interessada em conhecer melhor esta forma alternativa de luta.

Conclusão:

Resultados das intervenções ao longo do encontro:

• Marcação para entre 24 e 26 de Março de 2011

acções por toda a Europa.

• Criação de uma mailing list (list@makeouruniversity.org).

• Criação de um espaço comum de encontro entre todas as associações, no Crabgrass (na internet): “Paris Meeting 11-13” (Nome temporário).

• Publicação futura de um livro sobre educação autónoma que foi iniciado durante as sessões.

• Marcação de um encontro na Tunísia, (data a marcar na plataforma da internet).

As propostas finais avançadas no encontro:

• Utilização dos suportes digitais para criação de uma plataforma comum onde todos soubéssemos o que cada um anda a fazer, onde partilhássemos experiências e onde criássemos projectos comuns

•Ocupação do Mónaco, dia 1 de Agosto de 2011, pelas Universidades livres e independentes

•Tribunal dia 20 de Março em Londres para identificar os casos de precariedade

•Dias 1-3 de Abril em Viena debater o caso da migração e descriminações

•Criar um dia comum de acção.

•Organização de um mote, símbolo, nome e objectivos comuns.

•Institucionalizar para manter a força, mas manter orgânico e independente.

Este primeiro encontro serviu para aproximar activistas de diferentes pontos do mundo em torno de questões comuns. O levantamento de cada um dos contextos, dos problemas que atravessam e das suas formas de luta, fez-nos repensar a nossa forma de actuação do global para o local. Entendendo a luta como um processo permanente e contínuo, vão surgindo cada vez mais perguntas e novas formas de repensar a sociedade que queremos construir. Assim, a necessidade da criação de uma rede à escala global, impõe-se, para poder fazer frente aos desafios que nos são colocados e que dificilmente poderemos dar resposta se nos mantivermos isolados.

“Do rio que tudo arrasta se diz violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”

Bertold Brecht

 


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