“Porque é que estás aqui?”

por Irina Castro

Quando realizei a primeira matrícula na minha universidade, fui obrigada a tornar-me cliente do BES. Já tinha a minha conta pessoal numa outra instituição bancária, pelo que não fazia sentido abrir outra conta. O problema é que essa era a única maneira de obter o meu cartão de estudante, que me daria, por exemplo, descontos no autocarro no qual me deslocava, todas as semanas, entre a minha cidade natal e a cidade onde estudo.

Sempre achei aquela situação incorrecta – obrigar uma pessoa a tornar-se cliente de uma instituição bancária para obter o seu cartão de estudante? Não deveria ser obrigação da universidade disponibilizá-lo? A realidade é que aceitei aquela situação sem grande contestação.

Ao fazer parte do projecto “Estudantes por Empréstimo” assumi a personagem da jovem estudante que trabalha para pagar as suas propinas. Uma personagem que era tão real para mim – que me encontrava nessa situação –, como para uma grande parte das estudantes em Portugal. Neste projecto, era uma das promotoras de um banco privado, esses que estão tão presentes na maioria das universidades portuguesas.

Apesar de nunca ter trabalhado directamente para um banco, conheço colegas que, no inicio do ano – na altura das matrículas –, encontraram, aí, uma oportunidade de ganhar o dinheiro suficiente para pagar uma das prestações de propinas. Outras colegas chegam mesmo a trabalhar o ano todo, durante a licenciatura, tendo muitas vezes de abdicar do curso para se dedicar ao emprego.

Dizem que as parcerias entre universidades e bancos privados são uma oportunidade para os jovens. São uma oportunidade para os jovens enquanto trabalhadores e uma oportunidades para os estudantes enquanto escolha. As minhas dúvidas em relação à presença destes bancos nas universidades foi crescendo à medida que nós, “Estudantes por Empréstimo”, apresentávamos a nossa peça nas universidades do país.

Sempre achei que a minha opinião sobre a presença dos bancos privados nas universidades não era uma coisa a que muita gente desse atenção, mas à medida que íamos apresentando a peça, cada vez eram mais as perguntas que me dirigidam no Forúm.

“- Porque é que estás aqui?” – perguntavam
“- Porque tenho de trabalhar para pagar as propinas.” – respondia
“- Mas não tiveste bolsa?”
“- Não, a mim não me foi atribuída.”
“- E achas que esta é uma forma de resolver a falta de investimento na acção social?”
“- Não creio que seja a forma, mas foi a que eu encontrei para me aguentar a estudar.”
“- Não tens vergonha de estar a enganar os teus colegas?”
“- Enganar como?”
“- De lhes estares a impingir produtos económicos que os irão endividar!”
….

Estar naquela posição colocava-me entre a espada da necessidade de trabalhar e a parede da solidariedade.

Por muito que achasse que deveria haver mais acção social, aquele não era efectivamente o meu problema, e eu tinha era de desempenhar o meu trabalho o melhor possível pois não poderia correr o risco de ser despedida. Mas apesar de tudo, não podia deixar de concordar que estava a vender produtos que apenas iriam favorecer o banco, estava a enganar colegas.

Esta situação, apesar de não ser real para mim em relação a um banco, é real para uma enorme quantidade de outras situações em que me encontrei, a realizar trabalhos e a impingir produtos a estudantes e não estudantes, para poder pagar as minhas propinas.

Por outro lado, a opressão que sofri ao longo dos fóruns revelou pouca solidariedade para com os que, como eu, se encontram naquela posição de dificuldade.

A presença de bancos privados nas universidades não são, de modo nenhum, uma oportunidade para os jovens. São sim, uma oportunidade para esse bancos abrirem o leque de clientes e desenvolverem produtos económicos que melhor lhes permitirão jogar o jogo do mercado livre. Não há liberdade de escolha quando o cartão de estudante é da instituição bancária e não da instituição de ensino. Não há oportunidade de emprego, quando esse emprego é uma prestação de serviços temporária e precária que retira responsabilidade ao estado sobre o financiamento das universidades. Não há solidariedade enquanto os estudantes tiverem de se dividir em grupos dentro da sua própria escola, separando quem pode e quem não pode pagar para estudar.

Para mim, fazer parte deste projecto fez-me tomar consciência de todos os problemas que o ensino superior e os estudantes enfrentam diariamente. Fez-me dizer basta!… A universidade tem de ser publica, universal e gratuita!

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