Reinventar, transformando!

por João Nuno Mineiro


Como ciência da organização e administração dos espaços (físicos, institucionais, organizativos, sociais, por vezes psicológicos), a política é, primordialmente, uma escolha de caminhos. Escolha porque a política implica liberdade e responsabilidade. Caminhos porque com ela caminhamos sempre para algum ponto ou referencial. A principal característica que confere tanta importância à política é o seu carácter social. Política implica sempre pessoas, porque mexe directa e indirectamente nos mecanismos que regulam a vida das pessoas. É fundamentalmente por isso que a política precisa de ser inclusiva e colectiva.

Se olharmos, no caso Português, para a participação cidadã em actos políticos institucionais – eleições, referendos, consultas públicas –, e em actos políticos não institucionais – intervenção na escola ou local de trabalho, intervenção em debates, organização de acções, solidariedade social –, constatamos que existe um distanciamento crescente: um certo conformismo generalizado com a inevitabilidade do hoje, uma certa alienação incapaz de emancipar para transformar. Contudo, sabemos também que o distanciamento cidadão da política é, sobretudo e preferencialmente, um distanciamento institucional.

Mais que fazer uma análise rigorosa da repartição de responsabilidades por esta situação, mais que ir fazer uma desconstrução da história e da história política para percebermos quem é que afastou as pessoas da política, como é que o fez e (principalmente) porque…, cabe aos activistas do hoje, e do agora, olhar para o presente e fazer a pergunta:

O que podemos fazer? Como chegamos às pessoas?

A política é muito, também, a arte da pergunta. Entender a realidade implica a consequência da pergunta, porque só com a pergunta vem a resposta, e só com a resposta podemos entender, para transformar. Montherlant, escritor Francês do século XX escrevera que “a política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros”. Perante o real, o passo que temos de dar é o inverso: fazer da política a arte de captar em proveito dos outros (logo também de nós mesmos), as paixões próprias. Nesse processo de entrega social e construção de vontades colectivas, a reinvenção dos mecanismos de comunicação, de diálogo e de abordagem social deve ser a grande arma de resposta dos activistas do hoje.

É, neste campo da reinvenção do espaço de comunicação e abordagem social que a cultura e a arte podem, e devem, ter um papel fulcral. Nesta perspectiva, o projecto “Estudantes por Empréstimo”, foi uma lufada de ar fresco. Através de um veículo de comunicação alternativa, um grupo de jovens do ensino superior organizou um projecto que correu dezenas de Universidades e que mobilizou milhares de estudantes em torno de uma questão central para a juventude: o estado do ensino universitário em Portugal. Através de uma peça de teatro-fórum os estudantes contaram uma história que é comum a milhares de jovens em Portugal. E, não se limitando à mera observação do problema, os espectadores (neste caso espectactores) puderam entrar na peça para tentar solucionar o problema. Através de todas essas intervenções, opiniões e propostas, os espectactores puderam propor ideias para projectos de lei, que no concreto possam resolver o problema das propinas, das bolsas, dos empréstimos, da presença dos bancos nas escolas ou falta de democracia.

Resultados práticos do projecto?

– Milhares de estudantes a assistir e a participar na peça, a propor ideias, alternativas, soluções.
– Centenas de contributos concretos a serem aprofundados como propostas políticas.
– Criação de uma vontade colectiva de que a situação não é inevitável e que a conseguimos transformar.
– Uma petição entregue no parlamento com três das propostas mais unânimes que recolheu mais de quatro mil assinaturas.
– “Invasão” da sala do senado da AR na sessão final do projecto.
– Incentivo de muitos estudantes a organizarem e a fazer coisas.

Poderia pedir-se mais do que isto?

Através da reinvenção dos processos comunicativos, da forma de apresentar os problemaa, e da alteração do modo como perguntamos, “o que é que vocês acham que podíamos fazer para que esta situação fosse diferente”, o projecto Estudantes por Empréstimo foi capaz de trazer novos mundos à luta estudantil em Portugal, e é um exemplo de referência para outras tantas lutas com que nos confrontamos e iremos confrontar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: