Boal, Brecht, Bourdieu: reflexões a propósito de (mais) um Festival Internacional de Teatro do Oprimido

Reproduzimos aqui um texto de opinião de José Soeiro, publicado na Plataforma Barómetro Social, tendo como pretexto o Festival PULA FORUM onde os Estudantes por Empréstimo participaram.

Decorreu entre 20 e 27 de Junho, mais uma vez, o Festival Internacional de Teatro do Oprimido (TO) que há quatro anos se realiza em Pula, na Croácia, e que se tem transformado num dos espaços mais interessantes de encontro e troca de experiências de activistas do TO um pouco por todo o mundo. Com debates – este ano, sobre a experiência teatral no Movimento dos Sem Terra, no Brasil -, oficinas – neste caso sobre utilização de materiais recicláveis; sobre a estética épica e dialéctica; sobre o som e o ritmo no TO; e sobre a utilização do teatro em campanhas activistas – e com sessões de teatro fórum – este ano, com a presença de dois grupos da Sérvia, a trabalhar sobre o direito à educação e sobre o papel das mulheres ciganas; de dois grupos portugueses, com intervenção no movimento estudantil e na questão da informação e emancipação sexual; de um grupo de jovens alemães filhos de imigrantes e refugiados com uma peça sobre a “integração”; e de um grupo croata a trabalhar as questões de género –, o Festival Pula Forum tem permitido o interconhecimento e a partilha entre colectivos e grupos envolvidos num dos movimentos teatrais mais dinâmicos da actualidade.

A ideia do Teatro do Oprimido, que foi sendo descoberto por Augusto Boal, é simples: todos somos teatro. E, sendo o teatro a capacidade humana de nos observarmos em acção, precisamos de recuperar a nossa capacidade de actuar. Não se trata de uma mera retórica democratizadora e muito menos de qualquer simplificação contra quem dedica a sua vida à arte. Pelo contrário, a tese de Boal é que todos os seres humanos são espect-actores, combinando a capacidade de observar e de reflectir (própria do espectador) com a de agir nas situações que vemos (típica do actor). Ele, que era um conhecedor profundo da história do teatro e da dramaturgia, tentou encontrar um modo de devolver às pessoas os meios de produção teatral, cruzando influências diversas do teatro, da pedagogia e da política: Marx, Stanislavski, Brecht, Paulo Freire… A beleza do método que Boal desenvolveu e que vai hoje sendo enriquecido pela prática em mais de 80 países em contextos muito diferentes, é que ele se construiu a partir da necessidade de dar resposta a problemas concretos. A origem do teatro-imagem, do teatro invisível, do teatro jornal, do teatro forum, do arco-íris do desejo ou do teatro legislativo é inseparável da interpelação que diferentes momentos e lugares fizeram à curiosidade de Boal.

Um dos aspectos mais interessantes do trabalho com o Teatro do Oprimido é a sua atenção à mecanização do corpo, às relações de poder, ao modo como as situações de interacção actualizam as estruturas de desigualdade, à natureza relacional da opressão. Um elemento essencial do TO é a possibilidade de desenvolvermos uma consciência mais forte e reflexiva relativamente aos diferentes papéis sociais que representamos, aos seus guiões, aos comportamentos que prescrevem (uma “máscara”, em linguagem dramatúrgica), às formas de interagir e de usar o corpo que implicam (uma hexis, diria Bourdieu), às atitudes corporais típicas que exprimem essas relações sociais (o gestus, diria Brecht), ao modo como diferentes papéis profissionais ou de género, por exemplo, impõem diferentes distorções corporais. O nosso corpo é, com efeito, um arquivo da nossa experiência mas é também, em grande medida, domesticado pela forma dominante como se concebe cada “papel social” que temos, cada “identidade” e a sua “performance”.

Ao contrário das logoterapias, que prescrevem através do discurso as transformações necessárias, o Teatro do Oprimido, e em particular o teatro fórum, confronta-nos sempre com a complexidade do “aqui e agora”, com a dimensão “somática” das relações sociais, com a força da cooperação dos oprimidos com as estruturas de dominação (que nos “invadem os cérebros”, para utilizar a expressão de Boal), com a necessidade de conhecermos e de quebrarmos essa espécie de obscura submissão consentida que é a violência simbólica (Bourdieu, de novo, a encontrar-se com Boal).

O Teatro do Oprimido é, por isso, uma forma de consciência e de investigação acerca das relações de opressão em que estamos diariamente envolvidos e à forma como elas acontecem na interacção concreta, em toda a sua corporeidade: voz, gestos mecanizados, máscaras que nos escondem e nos limitam, rituais que nos prendem e confinam; mas também acerca do potencial de libertação e das margens de disrupção. O TO é, nesse domínio, o exacto contrário do role-playing. Enquanto este visa a experimentação dos papéis sociais e da nossa conformidade a eles, no TO pretende-se conhecer esses papéis para os questionar e, nalguns casos, destruir. Daí a estética do TO contrariar a reprodução, a catarse, e as histórias fechadas. Daí estarmos perante um método em que a realidade existente é sempre tratada como sendo apenas uma possibilidade entre outras. Dai se tratar de uma prática cujo centro é, no próprio momento teatral, a invenção pela plateia de outros possíveis para as histórias apresentadas.

Passados dois anos sobre a morte de Boal, o TO tem hoje uma dinâmica impressionante enquanto movimento e muitas questões interessantes com as quais se debater. Como evitar que o arsenal do TO seja utilizado como ferramenta desligada da ética do método, do seu compromisso politico e poético? Como desenvolver uma dramaturgia que articule interacção e urgência, por um lado, com estrutura e possibilidade de acção colectiva, por outro? Como desenvolver a estética do oprimido e a riqueza da imagem, do som, do movimento nas peças e no trabalho dos grupos? Como integrar o trabalho com o TO na dinâmica dos movimentos sociais? Como evitar a recuperação e o esvaziamento político do método que, por vezes, parece ser apropriado como “técnica de ensinar” ou “teatro interactivo” ao serviço das agendas ministeriais do momento? Como criar uma rede densa de cooperação entre quem está preocupado com estas e outras questões? São também estas discussões, para além das oficinas e dos espectáculos, que atravessam encontros como o que existiu em Pula e que fazem a vivacidade do Teatro do Oprimido hoje.

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